Por Yuri Schein
O ser humano moderno entrou tanto em contato com conforto que perdeu completamente a noção do quão extraordinárias certas coisas realmente são.
Um exemplo perfeito disso é o supermercado.
Sim, o supermercado.
O sujeito entra automaticamente, pega um carrinho, escolhe algumas coisas, passa no caixa e vai embora como se aquilo fosse apenas uma parte banal da existência humana. Mas pare por alguns segundos e pense no que realmente está acontecendo naquele lugar.
Frutas de regiões distantes. Carnes conservadas em temperaturas controladas. Produtos vindos de outros países. Corredores inteiros abastecidos diariamente. Sistemas logísticos funcionando sem parar. Caminhões cruzando estradas. Satélites auxiliando navegação. Redes elétricas alimentando refrigeração constante. Máquinas processando pagamentos em segundos. Estoques sendo monitorados digitalmente em tempo real.
Tudo isso para que alguém possa simplesmente pegar um iogurte numa terça-feira à noite.
Isso é civilização em estado bruto.
Durante a maior parte da história humana, obter comida era uma atividade brutalmente difícil. Seca, pragas, guerras e invernos destruíam populações inteiras. A fome era um visitante constante na história da humanidade. Hoje o homem anda reclamando porque “a fila do caixa estava grande”.
A abundância destruiu a percepção.
O supermercado moderno é uma demonstração gigantesca de cooperação humana, tecnologia, engenharia, agricultura, transporte, refrigeração, economia e organização social. Milhares de pessoas que nunca se viram colaboram indiretamente para manter aquelas prateleiras cheias todos os dias.
E quase ninguém pensa nisso.
O homem contemporâneo se acostumou tanto com o extraordinário que já não consegue enxergar a grandeza das estruturas que sustentam sua vida diária. Ele entra num ambiente iluminado, climatizado, abastecido com produtos do mundo inteiro, ouvindo música ambiente enquanto escolhe entre dezenas de sabores diferentes de chocolate — e ainda age como se isso fosse uma característica natural do universo.
Não é.
Civilização é frágil.
Basta uma crise logística séria, um colapso energético ou uma ruptura social para as prateleiras esvaziarem rapidamente. E então muitos perceberiam, talvez pela primeira vez, que estavam vivendo dentro de uma das maiores realizações coletivas da história humana sem sequer notar.
Talvez o problema do homem moderno não seja falta de milagres.
Talvez ele apenas tenha se tornado cego para eles.
Comentários
Postar um comentário