Yuri Schein
Aquele que começa a estudar a doutrina da Reforma, mas ainda não mergulhou em sua profundidade, frequentemente se sente desafiado — ou mesmo incomodado — ao ouvir exortações enérgicas como:
“Decida-se hoje.”
“Tome uma decisão por Cristo.”
“Escolha a melhor parte.”
“Hoje é o dia da salvação.”
Essas frases soam como se toda a eternidade dependesse exclusivamente de um ato de vontade humana, puro e simples. Para o iniciante, elas podem parecer entrar em tensão com os pilares da teologia reformada: a soberania absoluta de Deus, a depravação total do homem e a eleição graciosa. “Como assim ‘decida-se’, se o coração do homem é escravo do pecado até que Deus o liberte?”
Contudo, o estudante mais maduro, aquele que já possui um entendimento mais amplo das Escrituras e das doutrinas da graça, vê nessas exortações não uma contradição, mas uma bela harmonia. Ele sabe que tais chamados não são meros apelos ao livre-arbítrio autônomo, mas **meios ordenados por Deus** pelos quais o Senhor soberanamente inclina os corações para Si mesmo.
A Chave: Filipenses 2:12-13
Nenhum texto captura melhor essa realidade do que Filipenses 2:12-13:
“De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.”
Observe a sequência inspirada pelo Espírito Santo. Paulo não diz: “Operai a vossa salvação *porque* vocês têm total poder de decisão em si mesmos.” Ele diz: operai *porque* Deus opera em vocês o próprio querer e o efetuar.
Aqui reside a profundidade reformada. O imperativo (“operai”, “decidam-se”, “escolham”) é real e sério. Deus cobra responsabilidade do homem. Ninguém será salvo contra a sua vontade, como se fosse um robô. No entanto, o indicativo que fundamenta o imperativo é ainda mais glorioso: o querer de obedecer, de arrepender-se, de crer e de escolher a Cristo não nasce primeiro do homem. Ele é produzido por Deus.
O iniciante pode ver apenas o “decida-se hoje” e sentir um peso legalista. O maduro vê o versículo 13 por trás dele e descansa: se hoje meu coração se inclina para Cristo, não é porque eu fui mais esperto ou mais santo que os outros, mas porque o Deus soberano quis e operou em mim segundo a Sua boa vontade.
Por Que Deus Usa Exortações?
Deus não precisa de nossas exortações para salvar alguém. Ele poderia converter corações instantaneamente e em silêncio. No entanto, em Sua sabedoria, Ele escolheu usar a pregação da Palavra, os apelos fervorosos, os convites e as exortações como instrumentos ordinários da graça.
Quando o pregador clama “Decida-se hoje”, ele não está negando a soberania divina. Está cumprindo o mandamento apostólico de exortar, repreender e ensinar com toda a longanimidade. E o ouvinte que responde não está exercendo uma autonomia suprema, está respondendo ao chamado eficaz que o Espírito Santo já estava realizando em seu interior.
Isso dissolve a falsa dicotomia entre soberania e responsabilidade. Não são inimigas. São irmãs. Quanto mais entendemos que Deus opera o querer, mais seriamente levamos o imperativo de decidir. Porque sabemos que rejeitar o chamado não é apenas dizer “não” a um pregador, mas resistir à própria obra de Deus no coração.
Uma Advertência e um Consolo
Para o iniciante: não fuja das exortações bíblicas por medo de cair em arminianismo. Elas estão na Bíblia. Jesus mesmo disse “Vinde a mim” e “Arrependei-vos”. O perigo não está nas exortações, mas em interpretá-las fora do contexto de toda a Escritura.
Para o maduro: que essa verdade não produza preguiça espiritual, mas humildade e zelo. Se Deus opera em nós tanto o querer como o fazer, então corramos com temor e tremor, sabendo que cada boa decisão, cada renúncia ao pecado e cada passo de obediência são frutos da graça que não podemos reivindicar como mérito próprio.
No final, o evangelho reformado não anula o “decida-se hoje”. Ele o enche de significado profundo. Porque o mesmo Deus que nos ordena escolher é Aquele que nos dá o desejo e a capacidade de escolher o que é eternamente bom: Ele mesmo.
Que o Senhor continue levantando não apenas convertidos, mas crentes maduros que saibam adorar tanto a soberania que inclina o coração quanto a responsabilidade de responder a esse chamado.
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