Tomás de Aquino era Empirista?

 


Por Yuri Schein

Quando se menciona o nome de Tomás de Aquino, a maioria dos católicos tradicionais e até muitos evangélicos simpatizantes da “teologia natural” suspira em reverência. É quase como se o frade dominicano tivesse alcançado uma síntese perfeita entre fé e razão. Contudo, a pergunta que precisamos levantar é: Tomás de Aquino era empirista? E a resposta desconfortável para os escolásticos é: sim, em boa medida, ele era.

A Dependência Aristotélica

Para começar, precisamos lembrar que Tomás não parte da Escritura como fundamento de todo conhecimento. Ele parte de Aristóteles. Em vez de “No princípio, Deus criou...” (Gn 1:1), seu ponto de partida metodológico é: “No princípio, os sentidos perceberam...”. Sua epistemologia é uma adaptação do aristotelismo, onde o conhecimento começa na experiência sensível, e a abstração leva à universalidade. Isso é empirismo em essência.

Tomás chega a afirmar que nada chega ao intelecto que não tenha passado pelos sentidos. Ora, isso é o coração do empirismo! É o mesmo princípio que mais tarde embasaria Locke, Hume e o empirismo britânico. A ironia é que o católico medieval, celebrado como colosso da fé, pavimentou o caminho intelectual para o ceticismo moderno.

As Cinco Vias e o Deus dos Filósofos

As famosas “Cinco Vias” para provar a existência de Deus são um monumento à tentativa de provar o transcendente a partir do sensível. Movimento, causa, contingência, graus de perfeição, finalidade — todas as vias dependem da observação empírica do mundo para depois ascender à conclusão metafísica.

Mas há um problema: se o fundamento é empírico, o resultado é condicional, não absoluto. É o que Gordon Clark sempre apontou: a indução nunca garante certeza. Observar movimento e causalidade não prova que existe um Deus pessoal e trino, mas apenas leva a um “Primeiro Motor” ou “Causa Primeira” impessoal. É o “Deus dos filósofos”, não o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

Portanto, as Cinco Vias, longe de serem uma demonstração infalível da fé cristã, são a rendição de Tomás ao empirismo aristotélico. Ele substituiu a certeza revelacional pela probabilidade natural.

O Tomismo e a Herança Empirista

Alguns defensores de Tomás tentam amenizar: “Não, ele não era empirista, ele só usava a experiência como ponto de partida”. Mas isso é justamente o que define o empirismo. Se a experiência é o princípio do conhecimento, então a revelação deixa de ser o fundamento.

Não é por acaso que a tradição tomista gerou uma longa linha de “teologia natural” que tentou provar Deus sem Bíblia. E onde isso desemboca? No deísmo iluminista, que retira os milagres, e depois no ateísmo moderno, que conclui que as observações não levam a Deus nenhum. Vincent Cheung foi incisivo: a epistemologia empírica de Tomás não apenas é falha, mas anticristã. Ela dá aos incrédulos o controle da mesa de debate e força o cristão a jogar segundo as regras deles.

Exegese Contra o Empirismo

A Escritura nunca nos chama a deduzir Deus a partir de observações sensíveis. Pelo contrário, “o conhecimento de Deus é manifesto neles, porque Deus lhes manifestou” (Rm 1:19). A revelação é imediata, não derivada de abstrações empíricas. O salmista não conclui: “Observei movimento, logo há um Motor Primeiro”; ele afirma: “Os céus proclamam a glória de Deus” (Sl 19:1).

Além disso, Paulo destrói a pretensão empirista ao dizer que “a fé não vem pelo ver, mas pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo” (Rm 10:17). A fé nasce da revelação proposicional, não de deduções sensoriais.

O Legado Problemático de Tomás

Em última análise, Tomás de Aquino deixou um legado que, embora útil em sua sistematização de dogmas católicos, é filosoficamente contaminado. Sua confiança no empirismo aristotélico e suas “Cinco Vias” não passam de tentativas falhas de unir o que não pode ser unido: revelação divina e especulação humana.

A verdade é que Tomás era, sim, um empirista travestido de teólogo. Ele confiava nos sentidos e na razão autônoma mais do que na Escritura. E como toda epistemologia errada, sua herança abriu portas para mais trevas do que luz.

Conclusão

Tomás de Aquino, celebrado como o “Doutor Angélico”, errou gravemente em sua epistemologia. Ele trocou a rocha da revelação pela areia movediça do empirismo aristotélico. Suas Cinco Vias não levam a Cristo, mas a um “Deus” abstrato. E se o fundamento é empírico, o edifício desmorona.

Somente a epistemologia reformada, ocasionalista e pressuposicionalista — a de Gordon Clark, Vincent Cheung e da própria Escritura — fornece um fundamento inabalável: Deus é conhecido porque Ele se revela, não porque a experiência nos deixa deduzir Sua existência.

Portanto, respondendo à pergunta: Tomás de Aquino era empirista? Sim. E nisso estava o seu grande erro.

Comentários