Sobre o Argumento Cosmológico de Kalam: “Tudo que começa a existir tem uma causa” ou o equívoco que começa a existir na mente humana
Por Yuri Schein
Há um argumento repetido à exaustão nas conversas entre teístas e ateus, que muitos tratam como o “primeiro motor” da lógica:
P1. Tudo que começa a existir tem uma causa.
P2. O universo começou a existir.
Logo, o universo tem uma causa.
Parece limpo, sólido, irresistível. Mas essa solidez é de vidro: brilha, mas se despedaça com o primeiro toque da razão.
Para começar, a expressão “tudo que começa a existir” parece universal — como se cobrisse qualquer coisa, inclusive o próprio universo. Mas a mente humana, quando fala “tudo”, quase nunca quer dizer tudo mesmo.
Na prática, o homem sempre fala do que está dentro do universo, do que ele observa, mede e manipula. A experiência humana nunca ultrapassa o espaço e o tempo; portanto, quando alguém diz “tudo que começa a existir tem uma causa”, o que ele quer dizer, de fato, é:
“Tudo que começa a existir no espaço e no tempo tem uma causa no espaço e no tempo.”
Ou seja: a regra só vale dentro do jogo e o universo é o tabuleiro, não uma peça.
Quando então aplicamos essa regra ao universo inteiro, cometemos um salto lógico monumental. É como tentar aplicar as leis do jogo de xadrez ao próprio tabuleiro, exigindo que ele também dê um “xeque-mate” em si mesmo. O argumento se autodestrói porque pressupõe que o universo é mais uma coisa dentro do universo, o que é obviamente falso.
Portanto, P1 e P2 podem ser ambas verdadeiras, e a conclusão ainda assim ser falsa.
P1 pode ser válida dentro do universo.
P2 pode ser verdadeira, o universo pode realmente ter começado a existir.
Mas disso não se segue que o universo tenha uma causa, porque “causa” é uma noção temporal, e o tempo começa com o universo.
Logo, dizer que o universo foi “causado” antes do tempo é tão absurdo quanto dizer que existe uma sombra antes da luz.
A lógica, reduzida ao absurdo, mostra o erro:
Se toda causa deve ser anterior ao seu efeito, mas o tempo começou com o universo, então não há “antes” em que essa causa pudesse agir. A categoria “causalidade”, derivada da experiência temporal, não pode ser aplicada ao surgimento do próprio tempo sem distorcer seu significado.
O que o argumento tenta fazer é usar uma régua feita dentro do tempo para medir aquilo que está fora do tempo. É como usar um termômetro para pesar um piano: você pode tentar, mas a culpa não é do piano se o instrumento é o errado.
A falha, portanto, não está na busca por uma causa, mas na confusão conceitual.
A palavra “tudo” em P1 muda de sentido quando chega à conclusão.
No início, “tudo” significa “todos os objetos do universo”;
na conclusão, significa “o próprio universo”.
Essa mudança sutil é o que chamamos de equívoco de quantificação, uma falha lógica disfarçada de bom senso.
Em resumo:
P1 é verdadeira apenas para o que existe dentro do universo.
P2 fala do universo como um todo.
A conclusão mistura as duas linguagens e produz um absurdo.
Portanto, não há contradição em afirmar que tudo dentro do universo tem uma causa, que o universo começou a existir e ainda assim negar que o universo tenha uma causa.
Se quisermos defender que o universo foi causado, será preciso outra premissa, muito mais robusta, que estenda o princípio causal para além do tempo e do espaço, algo que não pode ser obtido por experiência, mas apenas por revelação.
Em última análise, o argumento cosmológico fracassa não porque Deus não exista, mas porque o homem tenta deduzi-Lo por uma regra que só vale dentro da criação.
É a criatura tentando medir o Criador com uma fita métrica feita de tempo, matéria e orgulho.
Deus não é a primeira causa: Ele é o autor da causalidade.
E quem tenta provar a existência de Deus apelando à causalidade temporal apenas demonstra que ainda não entendeu o que “Deus” significa.

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