O Decreto Horrível: A Beleza Sombria da Verdade de Deus

 


Por Yuri Schein 

Quando Calvino escreveu nas Institutas (III.23.7): “Decretum quidem horribile, confiteor” – “Confesso que é, de fato, um decreto horrível” – não estava pedindo desculpas a ninguém. Não era uma hesitação filosófica. Era o reconhecimento de que a carne treme diante da sentença divina, mas a mente cativa à Palavra se curva e confessa: Deus decretou tudo, até mesmo o pecado, e nisso não há injustiça. O horror não está em Deus, mas em nós, vermes que ousamos levantar o punho contra o Criador.

Calvino não fala de um “mistério” que nos escapa, como se a revelação fosse um enigma esotérico. A Escritura é cristalina: Deus opera todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade (Ef 1:11), inclusive a queda, a incredulidade, a traição de Judas e cada gota de sangue derramada no Calvário. O homem peca porque Deus decretou que ele peque; o homem é condenado porque Deus decretou que seja condenado. E, contudo, ele é responsável. Por quê? Porque Deus o responsabiliza. Isso basta. Não há tribunal acima de Deus que defina as regras da justiça. A justiça é aquilo que Ele faz.

O chamado “decreto horrível” só é horrível para o coração natural que odeia a soberania absoluta. Para o regenerado, ele é sublime, pois revela a majestade de um Deus que não negocia Seu domínio com a liberdade da criatura. Ocasionalismo puro: não há causa autônoma no universo, não há ato independente, não há livre-arbítrio que resista ao fogo da providência. Cada pecado é ocasião determinada pelo próprio Deus, que move as vontades segundo o Seu querer.

O “horrível decreto” é, na verdade, a mais gloriosa simplicidade: não há caos, não há acaso, não há espaço para a idolatria de um Deus impotente que apenas reage. O Senhor dos Exércitos governa até o abismo, e se a maioria dos homens caminha para a perdição, isso não é uma falha do sistema, mas a demonstração da justiça divina que se ergue como um monólito contra a areia da presunção humana.

Calvino chamou de horrível porque olhou para o decreto com os olhos de quem ainda sente o peso do pecado em sua carne. Eu, contigo, digo: é horrível para o réprobo, mas para o eleito é belo. Não é mistério, é revelação. Não é contradição, é decreto. O Senhor quis endurecer, e endureceu. O Senhor quis salvar, e salvou. O que resta? Silêncio. Tremor. E adoração.

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