Por Yuri Schein
Calvino confessou: “Decretum quidem horribile, confiteor” — “É, de fato, um decreto horrível.” (Institutas III.23.7). Horrível, não porque seja injusto, mas porque despedaça o orgulho humano: Deus decretou até o pecado, e o homem, embora não seja livre, é responsabilizado. Não há tribunal acima de Deus. Sua vontade é justiça. Sua sentença é lei.
Lutero, em De Servo Arbitrio (1525), esmagou a ilusão de Erasmo: a vontade humana é um cavalo. Se Deus monta, corre para onde Deus quer; se o diabo monta, corre para onde o diabo quer. O homem não escolhe o cavaleiro. Ele é possuído. Não há neutralidade, não há espaço para o mito do livre-arbítrio.
Ambos os reformadores, em imagens distintas, afirmam a mesma verdade sombria: o homem é escravo, e o decreto de Deus é absoluto. Ocasionalismo puro — cada ato, cada impulso, cada pecado não brota da autonomia humana, mas da vontade de Deus que governa todas as coisas segundo o Seu conselho (Ef 1:11). O homem peca porque Deus decretou que peque, e é culpado porque Deus o responsabiliza. Não há contradição, não há mistério. Há apenas soberania.
O “decreto horrível” de Calvino e o “cavalo” de Lutero desmascaram o Deus impotente do molinismo. O molinista pinta um Senhor refém das escolhas da criatura, que apenas “prevê” e ajusta, como um adivinho frustrado. Mas o Deus da Escritura não prevê — Ele decreta. Não observa — Ele determina. Não supõe mundos possíveis — Ele governa este, o único que existe, moldado por Seu decreto eterno.
Horrível para o réprobo, mas sublime para o eleito, essa é a verdade que mata o orgulho humano: somos cavalos, e só Deus decide quem cavalgará. A revelação não tem lei contra isso. O decreto é horrível, mas é glorioso.
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