🗣️ A LINGUAGEM DE DEUS É UNÍVOCA OU NÃO É LINGUAGEM

 


Por Yuri Schein

O drama da teologia contemporânea é que ela quer que Deus fale, mas não quer que o que Ele diz signifique o que Ele disse. Querem um Deus comunicador que, no fundo, não se comunique. Um Deus que fala, mas cujas palavras flutuam no éter da analogia, perdendo-se em algum tipo de misticismo verbal. Essa é a ironia mais trágica do pensamento religioso moderno: transformar a revelação em ruído sagrado.

A noção de que a linguagem de Deus é meramente analógica nasceu da covardia intelectual de Tomás de Aquino e foi nutrida pela preguiça mental de seus seguidores. Diante da revelação proposicional da Escritura, eles recuaram, dizendo: “Mas nós não podemos entender o que Deus diz como Ele entende; nossas palavras são apenas semelhantes às Dele.” Assim, com uma frase, substituíram o Deus que fala pelo Deus que balbucia.

Mas se a linguagem divina é analógica, então a revelação é uma caricatura. Pois a analogia, por definição, não comunica essência apenas semelhança parcial. Se quando Deus diz “Eu sou bom”, o termo “bom” não tem o mesmo sentido que tem quando dizemos “Deus é bom”, então não há comunicação, há ruído. A revelação se tornaria um teatro de sombras e o homem, em vez de conhecer Deus, conheceria apenas uma miragem semântica.

A Escritura, porém, não nos dá esse luxo. O Deus da Bíblia não fala por metáforas indecifráveis. Ele fala proposicionalmente, logicamente, racionalmente. A linguagem de Deus é unívoca ela possui o mesmo significado tanto na mente divina quanto na mente regenerada que a recebe pela iluminação do Espírito. A diferença entre Deus e o homem não é de sentido, mas de fonte. Deus é a causa primária do significado; o homem é o receptor derivado. Mas o conteúdo proposicional, o significado lógico, é o mesmo.

Quando Deus diz “Eu Sou”, Ele não está dizendo algo “sui generis”, “inefável” ou “analógico”. Ele está dizendo o que Ele é literalmente. E quando Ele diz “Não matarás”, não há uma analogia moral oculta por trás dessas palavras. A lei divina não é uma parábola. É comunicação direta da mente divina à mente humana.

A noção de uma “linguagem sui generis", tão amada pelos filósofos teológicos pós-modernos, é ainda mais absurda. Dizer que a linguagem de Deus é “de uma categoria própria” é dizer que ela não é linguagem. Pois linguagem, por definição, é um sistema de signos compreensíveis. Se ninguém pode compreender o que Deus diz em Seus próprios termos, então não há revelação, apenas o abismo. A teologia “sui generis” é o ateísmo travestido de reverência. É o elogio da escuridão com sotaque acadêmico.

E quanto à linguagem equívoca, ela é o suicídio da teologia. Pois se as palavras de Deus significam algo diferente para Ele e para nós, então é impossível qualquer doutrina verdadeira. Nesse caso, “Cristo é Deus” e “Cristo não é Deus” poderiam ser igualmente verdadeiros, dependendo de quem interpreta. A comunicação divina deixaria de ser proposicional e se tornaria uma ilusão semântica. Em última análise, a equivocidade da linguagem destrói a própria possibilidade de fé, pois não se pode crer em algo cujo sentido é indeterminado.

A teologia analógica e a equivocidade são as duas faces de um mesmo ídolo: o ídolo da “humildade irracional”. Elas dizem: “Deus é tão transcendente que não podemos saber o que Ele quer dizer.” Isso soa piedoso, mas é blasfemo. Pois se Deus não pode comunicar proposições compreensíveis, então Ele é um Deus mudo. E se Ele é mudo, a Bíblia é um cadáver literário.

A verdadeira humildade não consiste em negar o entendimento, mas em reconhecer que todo entendimento vem de Deus. O homem não é o criador do significado; é o recipiente. A linguagem humana é verdadeira porque participa da linguagem divina, não por autonomia, mas por derivação. A comunicação é possível porque há identidade de significado sustentada por dependência ontológica. Essa é a beleza da univocidade: ela preserva simultaneamente a transcendência e a imanência de Deus.

Deus fala e quando fala, o universo obedece. “Haja luz”, e houve luz. Essa é a gramática da criação: a linguagem de Deus é criadora, proposicional e literal. Não há analogia entre a palavra “luz” e a luz que surgiu; há causalidade. A palavra de Deus causa o que significa, porque Deus é a união perfeita entre lógica e poder.

Quando João escreveu: “No princípio era o Logos”, ele não estava descrevendo uma metáfora poética. Estava descrevendo a realidade ontológica da linguagem divina personificada. O Logos é a própria racionalidade de Deus em expressão comunicativa. O Verbo encarnado é a prova definitiva de que a linguagem divina não é um jogo semântico, mas a própria substância da realidade. O Filho é a Palavra e a Palavra é racional, inteligível, unívoca.

Aqueles que negam a univocidade da linguagem divina não percebem o absurdo da própria negação. Pois para negar que as palavras de Deus têm sentido idêntico, eles precisam usar palavras com sentido idêntico. Dizem, com univocidade, que a linguagem não é unívoca. A autodestruição é inevitável e quase cômica.

A lógica é a estrutura da linguagem, e a linguagem é o reflexo do Logos. Por isso, toda tentativa de dissolver o significado é uma tentativa de dissolver o próprio Cristo como Verbo. A univocidade é cristocêntrica. Rejeitá-la é rejeitar o próprio princípio da encarnação: o Verbo se fez carne — isto é, o sentido divino se tornou humano sem perder sua identidade.

A revelação, portanto, não é uma névoa simbólica. É uma transmissão literal de sentido. A linguagem divina é unívoca, porque Deus é um comunicador racional, e o homem foi criado à Sua imagem linguística.


E assim, concluo:

Se Deus fala, há comunicação verdadeira.

Comunicação verdadeira exige sentido idêntico entre emissor e receptor.

Logo, a linguagem de Deus é unívoca — e toda alternativa é blasfêmia travestida de humildade.

O resto é ruído.



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