por Yuri Schein
Séculos antes da Reforma, a voz de Gotescalco (Gotteschalk) ecoou como trovão no meio das trevas papistas: “Assim como Deus predestinou os Seus eleitos para a vida eterna pela graça imerecida, assim também Ele predestinou os réprobos para a morte eterna por justa condenação.” Essa sentença lhe custou prisão e açoites, mas também lhe garantiu um lugar entre os profetas do Deus soberano.
Gotescalco não suavizou o decreto. Ele não escondeu o aspecto sombrio da verdade. Para ele, não bastava dizer que Deus predestina para a vida; era necessário confessar que Deus também predestina para a morte. Um decreto duplo, absoluto, que não deixa escapatória ao homem. A salvação é graça, a perdição é justiça, e ambas procedem do mesmo conselho eterno.
Aqui não há mistério: há revelação. O homem não se perde por acidente, mas porque o Senhor decretou que fosse vaso de ira (Rm 9:22). Ele não se salva por mérito, mas porque foi separado antes da fundação do mundo (Ef 1:4). Não há meio-termo, não há neutralidade, não há lugar para o ídolo do livre-arbítrio. Ocasionalismo puro: Deus decreta o pecado, o pecado acontece; Deus decreta a fé, a fé acontece.
A Igreja de Roma chamou isso de heresia porque preferia um deus frágil, que depende da vontade da criatura. Mas Gotescalco preferiu a cadeia ao silêncio. E sua confissão sombria permanece como testemunho: Deus cavalga a história inteira, conduzindo uns para o Paraíso e outros para o Inferno.
Horrível? Sim, para os réprobos. Mas glorioso para os eleitos. A verdade é de ferro: o mesmo decreto que salva, condena; o mesmo Deus que ama, odeia; o mesmo conselho que exalta, destrói. E tudo isso é bom, porque tudo é de Deus.

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