SUBSTÂNCIA DE PALHA E O ACIDENTE DA ESCOLÁSTICA

 


Por Yuri Schein

O espetáculo beira o cômico: um calvinista escolástico tentando explicar a soberania de Deus sobre o mal apelando para a metafísica aristotélica. É quase como assistir alguém querendo consertar uma turbina de avião com martelo de brinquedo. O sujeito invoca “substância” e “acidente” como se essas categorias mágicas, tiradas da cartola de um filósofo pagão, fossem a chave para penetrar o mistério da decretação divina. O problema é que Aristóteles não foi um profeta, nem recebeu revelação inspirada; sua metafísica é filha ilegítima do empirismo. Ele olhou o mundo, confiou nos sentidos, juntou meia dúzia de observações e, com isso, achou que poderia dizer o que é a realidade última. Um desastre epistemológico: querer que os olhos carnais, limitados e enganadores, ditem as categorias que supostamente sustentam a providência de Deus.

O calvinista escolástico que compra esse pacote está simplesmente servindo vinho velho em odre furado. Ele chama de “filosofia cristã” aquilo que nada mais é do que paganismo rebatizado. A Bíblia declara que “o Senhor faz todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios, até o ímpio para o dia do mal” (Pv 16.4). Não há necessidade de “substância” e “acidente” para compreender isso. Basta crer que o Deus absolutamente soberano decreta, sustenta e dirige todas as coisas, inclusive o mal, sem que isso o torne pecador. Paulo em Romanos 9 não perde tempo com distinções aristotélicas: ele responde o problema da providência com a contundente verdade de que Deus endurece quem quer e tem misericórdia de quem quer.

O irônico é que esse apelo escolástico à metafísica grega acaba caindo no mesmo buraco onde jaz o molinismo. Ambos confiam em categorias inventadas por homens, seja “ciência média” ou “substância/acidente”. Ambos querem salvar Deus de uma acusação imaginária de injustiça, em vez de deixarem que a Escritura fale por si. O molinista diz que Deus precisa consultar cenários possíveis para não “violar” a liberdade da criatura; o escolástico diz que precisa dividir o ser em camadas ontológicas para não “comprometer” a santidade divina. Mas em ambos os casos, a Palavra de Deus é colocada como prisioneira da razão autônoma.

A única saída é a epistemologia da revelação. Ocasionalismo, não empirismo. Escritura, não Aristóteles. Não precisamos de óculos gregos para enxergar a glória de Deus; precisamos apenas da luz da Palavra, que sozinha explica que Ele “opera todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Todo o resto, seja Aristóteles, seja Aquino ou Molina, não passa de substância de palha e acidente escolástico.

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