Por Yuri Schein
Existe um velho truque de trazer o sensu in diviso e o sensu composito para tentar refutar o determinismo absoluto/ocasionalismo. Isso é quase um clássico de tão centenário! É como assistir alguém tentando apagar incêndio com um balde furado. Não que eu subestime a engenhosidade humana; pelo contrário, é fascinante ver como mentes que acreditam possuir algum talento lógico ainda se agarram a conceitos aristotélico-medievais como se fossem boias de salvação em alto-mar teológico. Mas aqui está a verdade nua e crua: tentar usar essas distinções para refutar o Ocasionalismo é, na melhor das hipóteses, brincar de esconde-esconde com a realidade divina, e na pior, é suicídio filosófico metafísico.
Para começar, precisamos entender os termos:
Sensu in diviso (“no sentido separado” ou “de forma dividida”): tenta analisar algo separando partes da essência ou da causa como se tivessem existência própria.
Sensu composito (“no sentido composto” ou “de forma composta”): considera o todo, a unidade de uma causa ou de um objeto como um conjunto indivisível.
Primeiro ponto: essas distinções são artefatos da tradição escolástica, tentativas humanas de dividir a experiência ou a causalidade em “partes” que existem por si mesmas. O que fazem, na prática, é criar uma pseudo-substância, um “fantasma lógico” que supostamente poderia existir fora da causa última. Mas o Ocasionalismo, na linha de Vincent Cheung, Gordon Clark e, ouso dizer, no meu refinamento calvinista-ocasionalista, derruba essa construção com um simples movimento: Deus é a causa de tudo, e nada existe como causa verdadeira fora Dele.
Quando o escolástico insiste: “Ah, veja, a coisa 'A' tem/está (em) um sensu in diviso, e a coisa 'B' um sensu composito, portanto há causalidade intrínseca aqui”, ele esquece completamente que toda causalidade é contingente à vontade divina. Não existe “parte” da criação que aja por si mesma; nada funciona sem a causalidade eficaz e o ato contínuo de Deus. Você pode separar conceitos até o fim dos séculos, mas a realidade permanece: Deus causa o mal e o bem, a alegria e a tragédia, a existência e a inexistência, e isso de forma absolutamente imediata, sem intermediários metafísicos que precisem ser decifrados por categorias escolásticas "complicadíssimas".
Segundo ponto: se quisermos ser rigorosos, o próprio sensu in diviso, ao tentar dividir a essência do ente, cai em contradição com a epistemologia ocasionalista. Lembre-se que no Ocasionalismo, o conhecimento humano, os sentidos, as percepções, os pensamentos, tudo isso, não possuem causalidade autônoma; são meras ocasiões para Deus operar Sua vontade e comunicar Sua verdade. Separar uma percepção em sensu in diviso e sensu composito não muda nada: a percepção não causa nada por si só, e qualquer distinção feita entre suas “partes” não tem efeito sobre a realidade última.
Terceiro ponto: há uma confusão sutil, mas letal, na tentativa de usar essas categorias. Quem apela para sensu in diviso está, muitas vezes inconscientemente, invocando causalidade humana, aquela que o Ocasionalismo precisamente nega. É como tentar construir um castelo de areia sobre lava incandescente: a fundação simplesmente não existe. Se a percepção pudesse agir independentemente, então o Ocasionalismo estaria errado; mas ele não está. É Deus quem, por Sua vontade soberana, faz com que uma sensação, uma ideia ou uma reação ocorra exatamente quando e como Ele deseja. Toda tentativa de “dividir a realidade” ou de “compor a causalidade” é, portanto, apenas uma brincadeira de palavras que se desfaz diante da lógica pura do ocasionalismo calvinista.
Quarto ponto, para esmagar de vez: o uso dessas categorias aristotélico-escolásticas para criticar o ocasionalismo cai em um erro epistemológico flagrante. O ocasionalismo não se limita a falar sobre causalidade; fala sobre conhecimento, percepção e existência. O sensu in diviso presume que você pode “sentir a causalidade” ou que a causalidade está embutida nas partes do objeto. O ocasionalismo diz: não, a causalidade está em Deus, não no objeto, não no sentido, não na percepção, não no pensamento. Qualquer argumento que tente inverter isso, mesmo com sofisticação escolástica, é automaticamente refutado pela premissa basal: Deus é causa metafísica primeira, e todas as causas secundárias são apenas ocasiões para Sua ação.
Em resumo, invocar sensu in diviso ou sensu composito contra o ocasionalismo é como trazer uma rede de pesca para capturar a luz solar: elegante na intenção, inútil na prática. Você pode discutir definições, subdivisões, nuances semânticas, mas nada disso toca o núcleo esmagador do ocasionalismo: tudo que acontece, acontece porque Deus quer que aconteça, e nenhuma distinção humana altera a realidade da causa divina.
Se ainda tenta defender sua metafísica, lembre-se: o ocasionalismo não se abala com sutilezas escolásticas, mas apenas com a ignorância da soberania absoluta de Deus. Qualquer tentativa de refutá-lo com sensu in diviso é como tentar apagar o Sol com um espirro: não importa o quanto você se esforce, a luz continua lá, e o Sol, Deus, continua a ser a causa de tudo.
Finalmente, o sensu in diviso e sensu composito podem até impressionar mentes desavisadas, mas no reino do ocasionalismo, eles não arranham nem a superfície da realidade divina. Toda crítica baseada neles é pó diante da eternidade do ato causal de Deus.

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