Por Yuri Schein
Se você achou que os escolásticos já haviam atingido o ápice do absurdo com dados, mãos e plantas, prepare-se: agora entram em cena as ideias mais audaciosamente ridículas já inventadas para tentar refutar o Ocasionalismo. A começar com a pérola de que o homem dá forma ao ato, tornando-se uma causa real e eficaz, e não Deus. Sim, você leu certo. Segundo esses mestres da sofisticação medieval, quando você, humano limitado, decide, age e escolhe, você estaria, por algum tipo de “magia metafísica”, conferindo forma e efetividade à própria realidade. Deus, então, seria relegado a mero coadjuvante, observando sentado enquanto você produz efeitos reais.
O que dizer disso à luz do Ocasionalismo? Simples: ridículo. Deus não é apenas participante; Deus é autor de todo ato, toda forma, toda causalidade. Se você, humano, “dá forma” a alguma coisa, é apenas ocasião para a ação divina. O senso de eficácia que os escolásticos atribuem ao homem é, portanto, ilusão filosófica. Cada pensamento, decisão, movimento, escolha ou intenção ocorre porque Deus permite e causa, e não por algum poder inerente do agente humano. Como disse Cheung em “Não existe sinergismo real”, qualquer tentativa de imputar eficácia causal a um ser finito é desprezo total da causa primária e soberana de Deus.
Mas os escolásticos não param por aí. Alguns vão além e afirmam que a criatura possui causa inerente por natureza, ou seja, não só dá forma ao ato, mas, por alguma propriedade intrínseca, realmente causa efeitos. Um dado rola? Ele causa seu próprio resultado. Uma planta cresce? A causa está na natureza da planta, não em Deus. Uma mão se move? O poder é do músculo, do tendão, da articulação. Essa ideia, se levada a sério, reduz Deus a um mero “coadjuvante cósmico”, enquanto o mundo finito, limitado e contingente assume um protagonismo impossível.
O Ocasionalismo despedaça essa pretensão em um instante. Nada possui causalidade intrínseca. Nada tem poder por si mesmo, por natureza ou por forma de ato. Deus causa absolutamente tudo, de cada rotação de átomo a cada batida do coração humano. As criaturas não possuem causa por natureza; elas são meros instrumentos e ocasiões. A tentativa de atribuir causalidade inerente é uma tentativa desesperada de humanizar o universo, de reduzir a infinita soberania de Deus à experiência limitada e patética do homem.
E o festival do absurdo continua com o conceito de mundos possíveis, que Aristóteles e seus herdeiros escolásticos adoram invocar para discutir proposições futuras. “Haverá guerra amanhã?”, perguntam eles. Mesmo que a guerra esteja marcada, para esses filósofos, a proposição ainda poderia não se realizar, porque existe um “mundo possível” em que a guerra não ocorre. Que engenhoso truque mental para dar a sensação de liberdade e poder ao homem ou à contingência!
Do ponto de vista ocasionalista, isso é mais uma redução patética da metafísica e epistemologia à perspectiva humana. Reduzir a verdade de eventos futuros àquilo que é apenas possível para a mente humana é colocar o universo no nível de observações limitadas do ser finito. Deus não depende de mundos possíveis ou contingências humanas para que algo seja verdadeiro. Deus causa a guerra, Deus causa a paz, Deus determina o resultado final de cada evento, e toda a especulação humana sobre possibilidades alternativas é, no máximo, uma distração intelectual que não altera nem um milímetro da realidade divina.
Vamos ligar os pontos:
1. Homem como causa eficaz? Não. Ele é apenas ocasião para Deus agir.
2. Criaturas com causalidade inerente por natureza? Não. Toda causalidade reside em Deus; as criaturas são instrumentos, jamais causam por si mesmas.
3. Proposições futuras e mundos possíveis? Irrelevantes. A verdade de cada evento está em Deus, não no cenário que a mente humana consegue imaginar.
4. Sensu in diviso e sensu composito? Continuam irrelevantes quando confrontadas com a causalidade absoluta de Deus.
Cheung reforça essa linha em “Deus o Autor”: nenhuma decisão humana, por mais complexa ou consciente que seja, possui causalidade real; todo ato humano é um instrumento para o ato divino. E qualquer tentativa de combinar liberdade humana com causalidade real independente é, como ele ironiza, “duas coisas bobas”: sofisticação erudita que não arranha a realidade do soberano Deus.
O resultado é devastador para a escolástica: tentar refutar o Ocasionalismo com mundos possíveis, causalidade humana ou causalidade inerente da criatura é reduzir a metafísica e a epistemologia ao ponto de vista humano, ignorando completamente o ato contínuo, absoluto e soberano de Deus como causa de tudo.
Assim sendo, qualquer teoria que coloque o homem ou a criatura como autores reais do ato, ou que dependa de mundos possíveis, é totalmente esmagada pelo Ocasionalismo. Não importa quão elaborada seja a construção escolástica, não importa quão sofisticada pareça a análise humana, Deus continua sendo a causa única, absoluta e autoritária de todo ato e toda realidade. O resto, pensamentos, possibilidades, mundos imaginários ou pretensa causalidade inerente, não passa de pó diante do Sol divino da causalidade.

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