O Escândalo do Deus que Reina

 


por Yuri Schein 

Se existe algo que o homem natural odeia mais do que o pecado é a soberania de Deus. É quase cômico: o mundo tolera adultério, idolatria, corrupção e blasfêmia; mas quando se lê em voz alta Romanos 9:18 — “Logo, tem ele misericórdia de quem quer, e também endurece a quem quer” — o religioso entra em convulsão teológica.

Não é coincidência que o apóstolo Paulo, ao expor a eleição incondicional, antecipe a objeção insolente: “De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade?” (Rm 9:19). Ou seja, a revolta que hoje vemos em arminianos e papistas já estava prevista no próprio texto bíblico. A resposta de Paulo? Simples, devastadora e intolerável para o orgulho humano: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?” (Rm 9:20).

Aqui está o ponto: o problema do arminianismo não é exegético, é moral. O homem não suporta ser criatura e quer sempre oferecer algo a Deus, mesmo que seja a miséria do seu “livre-arbítrio”. Calvino zombava dessa presunção ao dizer que “o coração humano é uma perpétua fábrica de ídolos”. E entre os ídolos, o mais repugnante é esse deus impotente que fica esperando a criatura “aceitá-lo”.

O católico romano, por sua vez, inventou o purgatório para maquiar a ineficácia da cruz. Como se o sangue de Cristo precisasse de uma extensão temporal, uma faxina adicional, um plano B para os que não foram “bons o suficiente”. Mas Hebreus 10:14 explode essa farsa: “Porque com uma só oferta aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados.” O purgatório é, no fim das contas, um insulto ao sacrifício perfeito de Cristo.

E os defensores da chamada “graça preveniente”? Estes são ainda mais sutis, mas igualmente ofensivos. Fingem exaltar a graça, mas no fundo querem preservar uma parcela de mérito humano. É a velha heresia do semi-pelagianismo com maquiagem evangélica. Vincent Cheung expõe essa contradição ao dizer que “um pouco de mérito humano é pior do que muito mérito, porque rouba a glória de Deus sob a capa de humildade”.

O que todos esses sistemas têm em comum é o horror diante da soberania divina. Preferem um deus domesticado, condicionado à vontade humana, do que o Deus vivo que declara: “Eu anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” (Is 46:10).

No final, o escândalo não está na doutrina calvinista, mas no próprio Deus das Escrituras. Ele endurece, cega, engana, decreta o mal para manifestar sua glória sobre vasos de misericórdia e vasos de ira (Rm 9:22-23). Quem não suporta esse Deus, no fundo, não suporta o evangelho.

E graças a Deus por isso. Pois somente um Deus que reina absolutamente pode salvar absolutamente. O resto é idolatria mascarada de piedade.

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