Por Yuri Schein
A acusação de que o ocasionalismo é panteísmo é uma das mais repetidas pelos apologetas clássicos e tomistas, aqueles que se ajoelham diante da filosofia pagã de Aristóteles e a rebatizam de “razão natural”. A ironia é que esses senhores, tão ávidos em acusar os reformados que sustentam a soberania absoluta de Deus, são eles próprios os maiores traidores da revelação bíblica, preferindo a metafísica de Estagira ao Deus vivo de Abraão, Isaque e Jacó.
O argumento é sempre o mesmo: “Se Deus é a causa de tudo, então não há distinção entre Deus e o mundo; logo, ocasionalismo é panteísmo.” O problema é que tal raciocínio só tem plausibilidade na mente de quem já adotou, de antemão, a idolatria aristotélica da causalidade eficiente como algo intrínseco às criaturas. O tomista parte do dogma de que a matéria e as formas possuem um princípio de ação em si mesmas, um poder autônomo de gerar efeitos. Quando alguém nega esse mito e afirma que somente Deus é causa, os tomistas surtam, acusando-nos de “confundir Criador e criatura”.
Mas vejamos: quem, afinal, confunde Criador e criatura? O ocasionalista, que diz que só Deus é causa, ou o aristotélico batizado, que atribui às criaturas o poder divino de causar efeitos? A Escritura não poderia ser mais clara: “O nosso Deus está nos céus; faz tudo o que lhe agrada” (Salmo 115.3). Não há exceções, não há zonas autônomas, não há espaço para uma causalidade concorrente que não seja o decreto soberano. Ocasionalismo não é panteísmo, é exatamente o oposto: é a distinção mais radical entre Criador e criatura. O mundo não participa do ser divino; ele existe apenas como sustentado pelo fiat criador de Deus, instante após instante.
Chamar isso de panteísmo é uma confissão involuntária: os tomistas sabem que, se levarem a sério a Bíblia, seu edifício aristotélico desmorona. Daí apelam ao espantalho. Ora, panteísmo é dizer que o mundo é Deus. Ocasionalismo é dizer que o mundo não é nada sem Deus. O panteísta dissolve o Criador no cosmos; o ocasionalista dissolve o cosmos na vontade de Deus. Não há maior abismo entre duas posições.
Jonathan Edwards, o grande teólogo reformado, já observava que a criação não é apenas um ato passado, mas uma dependência contínua. Gordon Clark e Vincent Cheung reforçam a mesma ideia: a única causa verdadeira é Deus. Negar isso em nome de uma suposta “filosofia cristã tomista” não passa de uma tentativa de batizar a idolatria aristotélica. Aristóteles acreditava em causas imanentes, forças internas, naturezas autossuficientes; os tomistas simplesmente pintaram essa estrutura com verniz cristão.
Se há algo que roça o panteísmo, não é o ocasionalismo, mas justamente a teologia da causa concorrente. Pois, ao atribuir às criaturas uma parcela de causalidade, ela lhes dá uma fagulha de divindade: poder de causar por si mesmas. Eis aí o verdadeiro paganismo disfarçado de ortodoxia.
Ocasionalismo é, portanto, puro teísmo bíblico. É a confissão de que só Deus é Deus, só Ele é causa, só Ele sustenta, move e determina. O resto é poeira sustentada pela Palavra. Dizer menos que isso é idolatria; dizer mais seria blasfêmia.
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