ARISTÓTELES, SAI DO TEXTO!

 


Por Yuri Schein 

Frequentemente sou abordado por Aristotélicos sobre Tiago 1.13-14, eles afirmam que Deus não pode ser o autor e causa eficaz do pecado por causa desse texto. Então toda a vez que encontrar esse texto responderei novamente, afinal é o tipo de argumento que se repete como um mantra.

É impressionante como o gado escolástico ainda tropeça na obviedade: Tiago não está ensinando metafísica grega, está ensinando responsabilidade pessoal. Tiago 1:13-14 é claro: “Ninguém, ao ser tentado, diga: sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta. Cada um, porém, é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz.”

Observe a genialidade prática do apóstolo: o homem não pode culpar Deus por suas paixões, desejos e pecados. É a concupiscência que o arrasta, é a cobiça que o seduz. E ainda assim, alguns escolásticos insistem em invocar substância, acidente, ato e potência, como se Aristóteles estivesse sentado ao lado de Tiago no Sinédrio, tomando nota. Não está. Tiago não quer te explicar o que é “essência” ou “forma”: quer que você assuma sua culpa. Simples assim.

Isso não significa negar a soberania absoluta de Deus. Deus ordena e causa tudo, inclusive atos humanos que são moralmente maus (Atos 2:23; Isaías 10:5-15; Romanos 9:17-18). Mas há aqui uma distinção essencial: causalidade metafísica ≠ culpabilidade moral. Deus pode decretar tudo, mas o homem responde pelo pecado. Tiago não está tentando construir um tratado de ontologia; ele está oferecendo um sermão ético sob decreto divino.

Invocar Aristóteles para justificar o pecado ou explicar Tiago é anacronismo puro. É como trazer Pinóquio para uma discussão de lógica formal: você acaba falando com um boneco de palha, encantado pela própria indução, e perde o cerne do texto. Tiago é direto, concreto, prático: culpa é do homem, responsabilidade é pessoal, Deus não é o culpado da tentação. Quem não entende isso, perdeu o ponto e entrou no território do pagão metafísico por conta própria.

No fim, Tiago nos chama à consciência ética: reconheça sua concupiscência, assuma sua culpa e pare de transformar um manual moral em palestra de Aristóteles. Responsabilidade é pessoal, e nenhuma metafísica grega de palha pode mudar isso.

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