ARISTÓTELES E O ESPANTALHO EMPÍRICO

 


Por Yuri Schein 

Aristóteles construiu toda a sua metafísica sobre a areia movediça do empirismo. Tudo começa nos sentidos e se organiza pela indução, como se observar alguns cisnes brancos garantisse que todos os cisnes do universo seriam brancos. Mas esse raciocínio cai de cara na falácia da afirmação do consequente, enfrenta o problema da indução, pressupõe arbitrariamente a uniformidade da natureza e, para completar, não dá a mínima para o famigerado “Gênio Maligno” de Descartes. A indução, em sua essência, é um salto irracional: querer concluir leis universais, como as de causalidade, a partir de observações particulares, é o mesmo que saltar de um penhasco e esperar que a gravidade não exista amanhã.

O boneco aristotélico ainda tenta se segurar na distinção entre substância e acidente, mas o que isso prova? Nada. Continuamos presos ao empirismo que jamais escapa da dúvida cartesiana: como podemos ter certeza de que os acidentes percebidos correspondem a substâncias reais? Não temos. Logo, se a metafísica aristotélica se apoia em sentidos falíveis e indução insegura, qualquer pretensão de falar sobre Deus: invisível, espiritual e infinito, é pura idolatria intelectual. Um desfile de conceitos que só parecem sólidos porque ninguém ousou checar de perto.

E tem mais: a própria ciência moderna desmonta Aristóteles em silêncio. Na física quântica, por exemplo, átomos e partículas não “encostam” uns nos outros como ele supunha. Ou seja, suas conclusões sobre substâncias, acidentes e causalidade se tornam ainda mais frágeis, anacrônicas e auto-contraditórias.

Quando o nosso bonequinho toca no tema do mal, ele se enrola em seu próprio argumento circular. A lógica dele é esta: “Se Deus decreta o mal → então Ele seria praticante do mal.” Para escapar, recorrem à categoria de “acidente”, como se fosse um truque metafísico que resolve tudo. Mas não resolve. Se o acidente só existe na substância, o mal continua sendo decretado por Deus, apenas disfarçado. A famosa “fuga aristotélica” não passa de um rótulo vazio, um espantalho intelectual que insiste em se parecer com profundidade.

No fim, Aristóteles nos entrega um castelo de areia: elegante, histórico, mas incapaz de resistir a uma simples análise de lógica, indução ou metafísica divina. Um verdadeiro espantalho do pensamento, com cara de sabedoria, mas oco por dentro.

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