por Yuri Schein
O vento cortava a torre mais alta de Lenória como lâminas invisíveis, sussurrando histórias antigas de glória e destruição. Ranur permanecia imóvel na varanda, observando o coração do reino que jurara proteger. Seus olhos, mais aguçados que os de qualquer mortal, varriam o horizonte com a precisão de um predador. Era um homem imenso, quase dois metros de altura, calvo, rosto marcado por séculos de vigilância, mas com músculos que lembravam um guerreiro jovem. Aos olhos de muitos, tinha a aparência de cinquenta anos; na realidade, carregava quinhentos.
“Não é necessário dizer o nome da cidade onde nasci,” murmurou, com a voz grave como trovão distante. “O mapa de Lenória mudou muito. Aquela cidade humana, outrora próspera, hoje é apenas ruína no extremo sul do reino.”
Seus pensamentos retornaram a cinco séculos atrás, quando os elfos dominavam toda Lenória. Naquele tempo, Ranur era apenas um escudeiro, filho de uma família humana de prestígio, vassalos dos elfos que governavam com mão de ferro. Alguns diziam que os nobres humanos mantinham sangue élfico em suas veias, fruto de casamentos cuidadosamente planejados para preservar linhagens.
Ainda jovem, Ranur foi convocado diretamente por Lenória, a guardiã da luz e dos relâmpagos, uma entidade que conferia aos guardiões poderes imensuráveis. Ele recordava o instante em que a luz desceu sobre ele, aquecendo sua carne e alma, prometendo-lhe força titânica, sentidos sobre-humanos, celeridade impossível, magias que variavam da luz pura à teletransporte, da cura à palavra de morte. A língua de seu poder, o Ancient, ressoava em seu coração, conectando-o aos Hunens, anciões de poder leais à criação, guardiões do equilíbrio do universo.
O treinamento foi rigoroso. Ele corria por campos e ruínas, aprendendo a manejar sua espada larga com ambas as mãos, cada golpe ecoando como trovão. Sua armadura dourada e o manto branco, marcados com o símbolo do Grifo da cidade, não eram apenas vestes: eram juramentos vivos de proteção e poder. Entre corridas solitárias e batalhas simuladas, Ranur aprendeu que a força verdadeira não era apenas física, mas também mágica e espiritual.
Os anos se passaram. Ele enfrentou elfos rebeldes, monstros ancestrais e magos sombrios, cada desafio moldando-o em algo além do humano, algo próximo à lenda. Cada vitória o aproximava da torre que hoje chamava de lar. Elevada no centro de Lenória, a torre tornava-se o farol de vigilância do reino, onde Ranur permaneceria observando e protegendo, imortal e incansável.
Quando finalmente se instalou na torre, Ranur evocou o Grifo celestial. A criatura surgiu em luz e relâmpagos, colossal e magnífica, pronta para responder ao chamado do guardião. Era um símbolo de sua autoridade, do pacto eterno com Lenória. Ele sabia que seu dever não era apenas proteger o reino físico, mas também guardar o equilíbrio do mundo, combater as forças rebeldes entre os anciões e assegurar que a luz de Lenória jamais se apagasse.
Ranur suspirou, olhando para o horizonte. Cada pedra, cada rua, cada vida sob sua proteção era uma promessa que carregava há séculos. “Enquanto Lenória precisar de mim,” disse, quase para si mesmo, “eu permanecerei. Guardião eterno, entre homens e elfos, entre história e lenda.”
E assim, no silêncio da torre dourada, sob relâmpagos que cortavam o céu, Ranur permanecia vigilante. Um homem que não envelhecia como os mortais, cujas memórias alcançavam cinco séculos, e cujo poder era maior do que qualquer homem poderia imaginar.
O Guardião e a Sombra do Norte
O vento uivava como um trovão ao redor da torre de Lenória enquanto Ranur montava sobre o Grifo Celestial, sua armadura dourada refletindo os últimos raios do sol poente. A criatura mítica batia as asas com força descomunal, gerando rajadas que faziam tremer o chão abaixo da torre. Cada batida elevava-os mais alto, e logo o reino inteiro se desenrolava aos pés do guardião e sua montaria, um espetáculo de luz e relâmpagos.
Ranur voltava-se para o Norte. Havia uma sombra que se movia nos confins de Lenória, uma presença negra que se espalhava como um véu de morte. O Necromante, cujo nome corria pelos sussurros do reino (registrado nos relatos antigos do blog Luzdojusto), tinha levantado exércitos de mortos-vivos, alimentados por um poder que lhe fora concedido por uma entidade do Caos, serva de Angarkor, o algoz.
Enquanto voavam sobre florestas e montanhas, Ranur desferia ataques com seu Grifo Celestial, relâmpagos e rajadas de vento despedaçando cadáveres reanimados que marchavam sem vida, avançando em direção ao Sul. Cada golpe do grifo ou da espada larga de Ranur pulverizava dezenas de mortos-vivos, mas o fluxo parecia interminável, como se a própria escuridão se reproduzisse.
O céu se escureceu com a presença da magia negra do Norte. Correntes de sombra dançavam sobre rios e planícies, e as chamas de feitiços antigos tentavam engolfar o vento. Ranur ergueu o punho e pronunciou palavras em Ancient, invocando luz pura que rasgou o céu e iluminou o chão, revelando a verdadeira ameaça: Angarkor.
Ele surgiu no horizonte como uma figura envolta em faixas negras, dois katares reluzindo com sangue e magia corrompida, sua presença distorcendo a realidade ao redor. Cada passo parecia alterar a gravidade, cada gesto dobrava o espaço como se a própria terra obedecesse aos seus caprichos. Ranur apertou a empunhadura da espada, sentindo a ligação com o Grifo, agora amplificada pela bênção de Lenória.
— Angarkor… — murmurou Ranur, sabendo que, embora pudesse lidar com hordas de mortos-vivos, aquela entidade era algo além do que qualquer guardião havia enfrentado antes.
O Grifo Celestial avançou primeiro, planando sobre os exércitos negros e rasgando filas de mortos-vivos com garras e bicos, enquanto Ranur atacava do ar com sua espada larga, cortando como um raio. Relâmpagos disparavam de suas mãos, trovões se misturando com o rugido da criatura colossal. Mesmo assim, a sombra negra persistia, e o próprio ar parecia se curvar diante de Angarkor.
Ranur derrotou dezenas, talvez centenas, de mortos-vivos, mas à medida que se aproximava do Norte, o ar ficou denso, pesado, vibrando com a energia de um poder capaz de distorcer tempo e espaço. E então, no topo de uma colina desolada, Angarkor se revelou por completo, envolto em trevas vivas, suas faixas negras se movendo como serpentes independentes, os katares prontos para o primeiro ataque.
O Grifo Celestial lançou um último rugido, iluminando o céu com relâmpagos dourados, enquanto Ranur segurava firme a espada, pronto para enfrentar o inimigo mais poderoso que Lenória já conhecera.
E ali, na penumbra da ameaça absoluta, a cena terminava — o guardião frente ao algoz do Norte, prestes a iniciar um confronto que decidiria o destino de todos os reinos.
O Confronto do Norte: Ranur vs Angarkor
O céu ao norte estava carregado de nuvens negras, cortadas por relâmpagos dourados que saíam do Grifo Celestial. Ranur, em sua armadura dourada que refletia cada raio de luz e com o manto branco ondulando ao vento, avançava em direção à figura sombria que distorcia o horizonte. O Grifo rugiu, um som tão profundo que parecia sacudir a terra e as montanhas ao redor.
E então, ele apareceu: Angarkor. A escuridão o envolvia como uma segunda pele, suas faixas negras flutuando independentemente, quase como serpentes vivas. Mas foi impossível não notar os detalhes que o tornavam ainda mais aterrorizante: olhos vermelhos brilhando com malícia e inteligência, penetrantes como chamas; cabelos brancos que reluziam como fios de neve em meio à escuridão, balançando suavemente com a magia que ondulava ao redor dele. Seus dois katares refletiam a luz do céu em tons de rubi e carvão, cada lâmina pronta para cortar não apenas carne, mas realidade.
Ranur desceu em vôo rasante, o Grifo batendo as asas em velocidade impressionante, espalhando vento e relâmpagos sobre o terreno. Cada movimento dele irradiava força e disciplina, seu corpo musculoso dominando o ar, a espada larga empunhada com ambas as mãos brilhando com runas de luz antiga, e o manto branco esvoaçando como símbolo de autoridade e justiça.
— Angarkor! — bradou Ranur, voz ecoando sobre os campos destruídos. — Esta é a proteção de Lenória!
Angarkor moveu-se com uma graça sobrenatural, flutuando sobre o solo, não tocando o chão, e com um gesto quase casual, distorceu a gravidade à sua volta. Cada ataque de Ranur, cada golpe do Grifo, era antecipado e desviado com uma facilidade insultante. As faixas negras de Angarkor dançavam, desviando relâmpagos e cortando rajadas de vento como se fossem fios de seda.
Ranur atacava com força total, combinando golpes físicos com magia antiga: feixes de luz dourada, rajadas elétricas, golpes de vento cortante. Mas cada ofensiva parecia inútil. Angarkor manipulava o espaço à sua volta, teleportando-se, dobrando o ar, fazendo a espada de Ranur bater no vazio ou acertar pedras e árvores ao redor, nunca o próprio corpo do algoz.
O Grifo Celestial investiu, garras e bico relampejando, mas Angarkor apenas ergueu uma mão, como se pedisse silêncio, e o Grifo parou no ar, impossibilitado de atacar, preso por correntes invisíveis de poder caótico.
Ranur sentiu o peso do mundo sobre seus ombros. Cada músculo, cada runa de magia, cada relâmpago que disparava parecia desaparecer contra a presença de Angarkor. O algoz moveu-se para frente, seus olhos vermelhos fixos no guardião, e com um simples gesto, derrubou Ranur do Grifo. Ele caiu no chão, mas a magia da Hunen protegida em sua armadura dourada absorveu parte do impacto. Ainda assim, a queda foi humilhante, o manto branco sujo e rasgado, a espada escorregando de suas mãos.
Angarkor deu um passo lento, imponente, cercando Ranur com sua aura de distorção. — Você é forte… — disse, voz baixa e cortante como vidro, — mas mesmo a luz de Lenória não é suficiente contra o caos que eu carrego.
Ranur se levantou, ferido no orgulho, mas ainda vivo. Angarkor sorriu, e os olhos vermelhos brilhavam com escárnio. Com outro gesto, dispersou os mortos-vivos restantes que Ranur havia conseguido derrotar, mostrando que tudo o que ele havia feito até então era insignificante diante de seu poder.
— Lembre-se deste dia, Guardião — concluiu Angarkor — a força não é tudo; até você, eterno como pensa ser, pode ser humilhado.
E então, como sombra que se dissolve no crepúsculo, Angarkor desapareceu, deixando Ranur exausto, humilhado, mas vivo, com a consciência pesada de que aquela batalha era apenas o começo de um confronto que definirá o destino de Lenória e de todos os reinos.
O Grifo Celestial pousou ao lado dele, o peito arfando, mas fiel, pronto para protegê-lo, enquanto Ranur olhava para o Norte, sabendo que a guerra contra o caos havia apenas começado.
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