Por Yuri Schein
Ao se debruçar sobre Mateus 24, rapidamente nos deparamos com uma tensão teológica que muitos tentam contornar por conveniência hermenêutica. O ponto central é que Jesus, ao falar de sinais e eventos, claramente indica que a geração presente veria o cumprimento de tudo (Mateus 24:34). Este versículo é o coração do preterismo parcial: os eventos descritos, mesmo aqueles que evocam a glória de Cristo, não se referem a um futuro distante, mas ao primeiro século. A dificuldade surge quando se chega aos versos 29-33. O texto ali descreve acontecimentos que lembram com força a vinda gloriosa do Senhor — trovões, sinais no céu, o sol escurecido, a lua sem luz, e as estrelas caindo. Para muitos, a proximidade desses sinais com o Apocalipse 19-20 é impossível de ignorar.
O problema hermenêutico que muitos enfrentam é a insistência em tomar literalmente esses versos e encaixá-los em uma escatologia futurista. A tentação de associar a “vinda gloriosa” de Mateus 24 aos eventos finais do mundo gera tensão com outros textos bíblicos que não podem ser ignorados. Um exemplo claro é 1 Coríntios 15, que mostra que a ressurreição dos justos e ímpios ocorre simultaneamente no final do Reino de Cristo — uma ordem que difere do futurismo clássico, no qual a ressurreição seria posterior à consumação.
O preterismo parcial, ou mesmo o pós-milenismo clássico, resolve essas tensões de forma elegante. O Reino de Cristo, de acordo com Mateus 28:18 e 1 Pedro 3:22, já está estabelecido. Cristo se assentou à destra de Deus e recebeu autoridade, reinando efetivamente até a ressurreição dos mortos. Este reinado não é simbólico; é real, é espiritual, é a manifestação concreta do Reino inaugurado pelo Messias ressuscitado. O Salmo 110:1 confirma este reinado, e Paulo reforça a mesma ideia ao falar do Cristo assentado à direita de Deus, até que todos os inimigos estejam por debaixo de Seus pés.
Lucas 17:20-37 reforça ainda mais esta perspectiva. O Reino de Deus já havia chegado com a pessoa de Cristo, ainda que não fosse manifesto de maneira visível e completa para o mundo. Jesus disse explicitamente que alguns presentes veriam o Reino de Deus se manifestando em Sua vinda. Mateus 16:28 ecoa isso: “Em verdade vos digo que há de vir alguns dos que estão aqui que não passarão até verem o Filho do Homem vindo em Seu Reino.” O que temos aqui é uma vinda que, embora gloriosa e majestosa, não se reduz à consumação final dos tempos, mas se refere ao estabelecimento inicial do Reino e do julgamento dos inimigos de Deus.
O aspecto crucial que muitos ignoram é a relação entre Mateus 24:29-33 e Apocalipse 19. O julgamento da Besta, do falso profeta e daqueles que receberam a marca da Besta é uma vinda real de Cristo, mas espiritual, não física. Esta vinda inaugura o Reino de Cristo, como descrito em Apocalipse 20, e não o conclui. Muitos eruditos futuristas ou mesmo dispensacionalistas tentam postergar esta vinda para um ponto futuro, mas a Bíblia afirma claramente: “não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam” (Mateus 24:34). O “todas estas coisas” inclui a vinda de Cristo para julgar e estabelecer Seu Reino, exatamente como Apocalipse 19 descreve.
Assim, a primeira ressurreição mencionada em Apocalipse 20 deve ser entendida espiritualmente, em consonância com Efésios 2 e 1 Coríntios 15, e não como o final literal do Reino. Cristo reina agora, espiritualmente, sobre Seus santos, enquanto o mundo ainda vive sob o efeito do pecado e da morte. O futurismo literalista perde de vista esta realidade, confundindo cronologia e natureza do Reino, enquanto a perspectiva preterista parcial se mantém coerente com toda a Escritura.
O fato de Jesus ter vindo para julgar, para estabelecer o Reino e reunir a Sua Igreja, conforme descrito em Mateus 24 e Apocalipse 19, não é uma questão de mera interpretação simbólica. É uma demonstração clara do ocasionalismo divino: Deus opera em todos os eventos históricos, tanto visíveis quanto espirituais, para cumprir Seus decretos soberanos. A vinda gloriosa de Cristo não é adiada, nem simbólica no sentido de ser um mero evento profético. Ela é histórica, espiritual e real, e cumpre a promessa de que toda a geração presente veria estas coisas se cumprirem.
Em suma, insistir em um futurismo literalista ou em uma escatologia que só se cumpre no fim do mundo é ignorar a coerência da Escritura. Cristo já reina. Seu Reino já começou. Sua vinda já se deu para julgar e estabelecer o que Deus decretou, e os eventos de Mateus 24 e Apocalipse 19-20 são uma mesma manifestação do mesmo poder, apenas de maneira espiritual e inaugurativa, não consumativa. A primeira ressurreição é espiritual, o Reino é real, e a promessa de Cristo se cumpre em Sua obra no primeiro século e continua até a consumação final.
O cerne da questão é este: a interpretação correta de Mateus 24 e Apocalipse 19-20 não exige adiar a vinda de Cristo para um futuro distante, mas compreender que o Reino já está presente, que a autoridade de Cristo já se manifesta, e que o juízo de Deus sobre Seus inimigos já começou, mesmo que a plenitude futura ainda esteja por vir. A teologia preterista parcial, combinada com uma leitura ocasionalista e calvinista, resolve essas tensões, mantendo a Escritura como unidade coerente, sem os artifícios da especulação futurista ou do literalismo ingênuo que ignora a realidade espiritual do reinado de Cristo.

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