por Yuri Schein
Vivemos em uma cultura marcada pelo imediatismo e pelo anti-intelectualismo. No Brasil, especialmente, há uma tendência histórica de desconfiar da reflexão profunda, reduzindo a fé a sentimentalismos rasos e a experiências místicas desprovidas de conteúdo sólido. Contudo, a Escritura, a história da Igreja e os grandes pregadores da fé reformada sempre apontaram a leitura — da Palavra de Deus, da teologia, da história e até das ciências — como um dever espiritual do cristão.
1. O Mandato Bíblico para a Leitura
A Bíblia não apenas recomenda, mas exige a leitura e a meditação constante da Palavra.
Josué 1:8: “Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido.”
1 Timóteo 4:13: “Até a minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação e ao ensino.”
Neemias 8:8: “Leram no livro, na lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia.”
Esses textos mostram que a leitura não é mero adorno intelectual: é central para a vida piedosa. O cristão que negligencia a leitura se priva do meio pelo qual Deus instrui, corrige e fortalece sua fé.
2. Exemplos Bíblicos de Homens da Palavra
Esdras é chamado de “escriba versado na Lei de Moisés” (Esdras 7:6), cuja dedicação à leitura e ensino foi instrumento de reavivamento em Israel.
Paulo, mesmo no fim da vida, preso e aguardando o martírio, pede a Timóteo: “Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos” (2 Timóteo 4:13). Mesmo sob a sombra da morte, Paulo não desprezou os livros.
O próprio Jesus, ainda menino, lia e interpretava as Escrituras na sinagoga (Lucas 4:16-21). O Verbo encarnado se dedicou ao Livro escrito.
3. O Testemunho dos Reformadores e Pregadores
Os gigantes da fé sempre viram na leitura um meio de graça.
João Calvino escreveu: “Aqueles que desejam edificar a Igreja por meio de suas próprias invenções — afastando-se da pura Palavra de Deus — constroem uma Babel.” Para Calvino, o cristão deveria ser um estudante constante das Escrituras, evitando a ignorância que abre portas à heresia.
Charles Spurgeon exortava seus alunos: “Quem não lê, não pensa; quem não pensa, dificilmente será útil no ministério.” Em outra ocasião, disse: “Prefiro um homem que tenha uma biblioteca em sua mente e no coração, ainda que seus livros estejam gastos, a um pregador que prega apenas a partir de seu próprio entusiasmo vazio.”
M
Martinho Lutero enfatizava que a fé cristã não é irracional: “A fé vem do ouvir a Palavra, não de devaneios pessoais.” Ele mesmo traduziu a Bíblia ao alemão para que todos lessem, pois sabia que um povo ignorante da Escritura seria presa fácil do anticristo.
4. A Crítica ao Anti-intelectualismo Brasileiro
Infelizmente, no Brasil, muitos cristãos se acomodam no analfabetismo espiritual. A cultura religiosa brasileira muitas vezes confunde fé com emoção, desprezando o estudo sério. Surgem então duas distorções:
1. O misticismo vazio — o crente busca apenas experiências subjetivas, sem fundamento bíblico.
2. O pragmatismo raso — líderes buscam apenas resultados numéricos e imediatos, sem formar discípulos instruídos.
O resultado é uma igreja frágil, incapaz de resistir ao avanço das seitas, das heresias e do secularismo.
Como observou Hosea 4:6: “O meu povo foi destruído porque lhe faltou o conhecimento.”
Uma fé sem leitura é uma fé sem raízes. O anti-intelectualismo não é humildade; é desobediência. Quem rejeita o esforço de pensar e ler rejeita o meio que Deus instituiu para amadurecer Seu povo.
5. A Leitura como Devoção e Guerra Espiritual
O cristão deve ler porque:
A leitura bíblica alimenta a alma (Salmo 119:105).
A leitura de bons livros expande a compreensão da verdade e equipa para responder a heresias (1 Pedro 3:15).
A leitura combate a preguiça mental, que é terreno fértil para o diabo (2 Coríntios 10:5).
Portanto, todo livro que nos leva à Palavra e aprofunda nosso entendimento de Cristo é um instrumento de santificação.
A fé cristã não é uma fé cega. É fé iluminada pela Palavra escrita. O cristão deve ser leitor diligente, não apenas da Bíblia, mas também de obras que edificam, instruem e corrigem. O anti-intelectualismo brasileiro é um inimigo da Igreja, porque substitui a maturidade pela superficialidade.
Ouçamos novamente Spurgeon: “Dê-me um crente que lê, e eu lhe mostrarei um crente forte.”
Assim, ler é não apenas um ato cultural, mas um ato espiritual. O cristão que lê obedece a Deus, fortalece a fé e se prepara para resistir firmemente às mentiras do mundo.

Comentários
Postar um comentário