Por Yuri Schein
Se os antigos hebreus forjaram um bezerro de ouro no deserto, nós hoje fabricamos ídolos de silício, de vidro temperado e de circuitos invisíveis. O povo outrora se prostrava diante de Baal pedindo chuva; hoje dobra o pescoço diante de uma tela brilhante pedindo likes, dopamina e senso artificial de relevância. O que mudou? Absolutamente nada, a não ser o disfarce.
O Continuum da Idolatria
A Escritura nos adverte: “Sabemos que o ídolo nada é no mundo” (1Co 8.4). Paulo não diz que o ídolo deixou de existir, mas que sua essência é o vazio, um nada que exige culto. A ironia da revelação é que quanto mais o homem se emancipa de Deus, mais escravo se torna de nadas. Os caldeus tinham pedras esculpidas; nós temos algoritmos treinados. Mas ambos exigem sacrifício de tempo, energia, pensamento e até de filhos (veja a geração sendo consumida por telas, assim como os filhos eram oferecidos a Moloque).
A Metafísica do Clique
Ocasionalismo puro: cada clique, cada rolagem infinita, não é efeito mecânico do dedo sobre o vidro, mas decreto divino que sustenta a realidade. Mas o incrédulo pensa que é senhor do seu consumo digital, como se fosse livre. O mesmo mito da “livre-agência” que já destronamos em Arminianos agora se fantasia de “livre navegação”. O algoritmo, dizem, manipula você. Não, o algoritmo não manipula nada; Deus é quem manipula você, usando o algoritmo como ocasião. A ironia é que a mente secular não percebe: ela atribui soberania a linhas de código. É a velha idolatria em linguagem binária.
Do Templo ao Marketplace
No mundo antigo, o templo de Éfeso girava em torno do comércio de imagens de Diana. Hoje, a loja de aplicativos cumpre o mesmo papel: milhares de micro-ídolos vendidos, cada um prometendo solução, prazer, transcendência. “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3) não é apenas mandamento contra imagens de pedra; é contra o culto invisível, digital, ubíquo.
A Promessa Escatológica da Tecnologia
Os tecnólatras falam em “singularidade”, o grande dia em que máquinas transcenderão a condição humana. Nada mais é do que o eco blasfemo da parousia: a promessa de uma salvação sem Cristo. Aqui está o anticristo digital, prometendo imortalidade via uploads de consciência. Mas Hebreus 9.27 permanece: “Aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo.” O único upload é da alma diante do tribunal de Cristo.
Se a tecnologia é o novo deus, temos de perguntar: pode ela sustentar o ser? Pode ela garantir lógica, moralidade, significado? Absolutamente não. Computadores não criam lógica; eles apenas processam sinais conforme princípios que já pressupõem a lógica transcendente criada por Deus. A idolatria tecnológica é, portanto, autodestrutiva: precisa da racionalidade cristã para existir, mas a nega. É como o ateu que respira o oxigênio de Deus para cuspir insultos contra Ele.
O Bezerro Brilha em LED
A modernidade se gaba de não ser idólatra porque já não se curva diante de estátuas. Mas a tela é apenas uma estátua portátil, iluminada, interativa. O homem moderno, assim como Israel no deserto, dança em volta de seu bezerro, só que agora com Wi-Fi. E assim o Senhor pergunta: “Até quando claudicareis entre dois pensamentos?” (1Rs 18.21). A tecnologia pode ser instrumento; mas como ídolo, é apenas mais uma forma sofisticada de nada.

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