Por Yuri Schein
O texto diz:
“E vós me sereis reino sacerdotal e povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel.” (Êxodo 19.6)
Aqui temos uma das declarações mais impactantes de toda a história da redenção. Deus não tirou Israel do Egito apenas para levá-los a uma terra agrícola qualquer, mas para fazê-los um reino de sacerdotes e uma nação santa diante de todas as nações. Esse versículo é uma bomba nuclear contra qualquer leitura dispensacional ou amilenista estreita que reduz a obra de Deus a uma “igreja espiritual” sem efeitos visíveis na história.
O Reino Sacerdotal: Universalidade e Missão
O que significa ser “reino sacerdotal”? O sacerdote é o mediador entre Deus e os homens. Logo, Deus designa Seu povo para uma vocação universal: eles seriam, como nação, uma mediação visível da glória de Deus diante dos outros povos. Aqui já está implícita a universalidade do plano de salvação, o alcance do Reino de Deus a todas as nações. O pós-milenismo enxerga exatamente isso: a expansão histórica e progressiva do Reino de Deus na terra até que toda a humanidade seja confrontada com a soberania de Cristo.
Se alguém ainda acha que este texto se restringe ao “Israel étnico”, basta ver que o Novo Testamento pega essa mesma promessa e a aplica à Igreja de Cristo, composta de judeus e gentios:
“Vós, porém, sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus…” (1 Pedro 2.9).
Ou seja: Êxodo 19.6 não foi uma nota de rodapé esquecida no Sinai. Ele foi elevado à condição de identidade da Igreja universal.
A Nação Santa: Efeito Histórico
Deus não disse: “Vocês serão uma nação santa em segredo, cada um na sua vida particular”. Ele disse: “vocês serão”. Isso é declarativo e objetivo. Assim como em Mateus 28, quando Jesus ordena fazer discípulos das nações, aqui Deus já estava estabelecendo que Seu povo teria um caráter visível, transformador e histórico. O pós-milenismo é justamente a teologia que leva esse “vocês serão” às últimas consequências.
Enquanto o amilenismo quer reduzir o impacto do Reino a algo apenas “espiritualizado”, e o dispensacionalismo sonha com um futuro onde Israel nacional vai reassumir um protagonismo político, o pós-milenismo olha para Êxodo 19.6 e diz: Cristo já está reinando, e Seu povo já é esse reino sacerdotal, expandindo-se até que a Terra seja cheia da glória do Senhor (Hc 2.14).
O Reino Sacerdotal e Apocalipse 1.6
João, no Apocalipse, declara que Cristo “nos constituiu reino e sacerdotes para o seu Deus e Pai” (Ap 1.6). Ele não disse que isso é apenas futuro. Ele disse que isso já aconteceu. Ou seja, Êxodo 19.6 já está cumprido em Cristo, e agora é ampliado ao mundo inteiro. O êxodo do Egito era só um protótipo do verdadeiro êxodo: a libertação do pecado e do império das trevas.
O pós-milenismo, portanto, não inventa otimismo histórico do nada; ele é a leitura consequente da Bíblia inteira, desde o Sinai até a consumação.
O Redutio ad Absurdum dos Opositores
– O dispensacionalista lê Êxodo 19.6 e diz: “Ah, isso era só para Israel, mas falhou, então Deus teve que improvisar a Igreja como plano B”. Ou seja, segundo ele, o Deus soberano faz decretos que não se cumprem. É a teologia da gambiarra divina.
– O amilenista pessimista lê Êxodo 19.6 e diz: “Isso até se cumpre na Igreja, mas só invisivelmente, porque na história sempre será derrota, perseguição e escuridão até Jesus voltar”. Então basicamente Deus declarou que Israel seria um reino sacerdotal, mas na prática isso significa apenas que “um grupinho escondido sempre existirá na terra”. É transformar o trono de Deus em banquinho de igreja de bairro.
Já o pós-milenismo diz: Deus falou, então vai acontecer. Ele disse que Seu povo seria um reino sacerdotal diante das nações, e é exatamente isso que a história está mostrando: do Sinai até Jerusalém, de Jerusalém até Roma, de Roma até o mundo inteiro.
Conclusão
Êxodo 19.6 é um versículo que grita pós-milenismo. Ele mostra que o propósito de Deus não é apenas salvar indivíduos isolados, mas constituir uma comunidade histórica, santa e sacerdotal, que manifeste Sua glória ao mundo inteiro. Pedro e João entenderam isso. Os profetas entenderam isso. Cristo aplicou isso na Grande Comissão.
O pós-milenismo não é um sonho dourado, é a consequência lógica da fidelidade de Deus às Suas próprias palavras. Se Deus disse que Seu povo seria um reino sacerdotal, então ou Ele falha, ou a história vai se curvar diante desse Reino. E já sabemos qual é a resposta certa.

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