Por Yuri Schein
João Calvino (1509–1564), pai da teologia reformada, é frequentemente citado em debates sobre casamento e sexualidade. Embora seja claro defensor do ideal monogâmico cristão, sua abordagem à poligamia masculina é surpreendentemente permissiva quando considerada à luz da história bíblica e da providência divina.
Calvino reconhecia que a poligamia existiu nos tempos bíblicos e não a condenava moralmente de forma absoluta. Em seus Institutos da Religião Cristã (Livro IV, Cap. 17), ele observa que Deus permitiu que patriarcas como Abraão, Jacó e Davi tivessem múltiplas esposas e concubinas. Para Calvino, a proibição moral de Deus não recaiu sobre a quantidade de esposas, mas sobre a idolatria, injustiça ou vícios decorrentes dessas uniões.
O exemplo de Jacó ilustra bem essa posição: Calvino comenta que Deus operou bênçãos por meio de Léia e Raquel, independentemente das rivalidades ou preferências humanas (Gênesis 29–30). Assim, a poligamia masculina é apresentada como uma prática tolerada por Deus para a manutenção da linhagem, da família e da providência divina, sem comprometer a santidade de Seu plano.
Além disso, Calvino reconhecia a diferença entre o ideal de Gênesis 2:24, um homem e uma mulher, e as permissões históricas dadas a Israel. Ele afirmava que o ideal matrimonial cristão é monogâmico, mas que Deus, em Sua soberania, podia permitir a pluralidade de esposas quando necessário para cumprir Seus propósitos. Em outras palavras, a poligamia bíblica não era vista como pecado em si, mas como uma realidade histórica providencial.
Calvino também enfatiza que a monogamia se torna particularmente relevante no Novo Testamento, quando Cristo cumpre a Lei e estabelece a união conjugal como um pacto sagrado e exclusivo entre um homem e uma mulher (Mateus 19:4–6). A poligamia, portanto, é permitida historicamente, mas não prescrita como ideal para a Igreja cristã.
Em síntese, a posição de Calvino combina firmeza moral com realismo histórico: ele defende o ideal monogâmico, mas reconhece que Deus, em Sua providência, permitiu a poligamia masculina no Antigo Testamento, abençoando homens como Abraão e Jacó. A prática é tolerada, não por ser o ideal, mas porque Deus age soberanamente mesmo em estruturas familiares plurais, cumprindo Seu plano redentor.

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